sexta-feira, 6 de março de 2015

Lua e estrela Duas esculturas em Canoa Quebrada são destruídas em menos de 10 dias




Além das esculturas, várias falésias em toda a orla sofreram processo de desmoronamento


canoa
Foto: Ellen Freitas
Em menos de dez dias, pela segunda vez, as esculturas naturais da lua e a estrela que simbolizam a praia de Canoa Quebrada, no município de Aracati, foram destruídas pelo avanço do mar e pelas chuvas. A primeira ocorrência foi registrada pelos frequentadores da praia no último sábado. Três dias depois, o fenômeno se repetiu. Além disso, várias falésias em toda a orla sofreram processo de desmoronamento.
O problema já havia sido levantado por uma série de matérias especiais publicadas pelo Diário do Nordeste há pouco mais de um ano, nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2014. Intitulada “O mar avança”, a reportagem alerta, dentre outras coisas, para o desmoronamento das falésias em  Canoa Quebrada, ocasionados por dois fatores.
O primeiro deles é o avanço do mar, fenômeno mundial decorrente das mudanças climáticas. O outro é a intervenção humana. No caso de Canoa Quebrada, o processo natural de desaparecimento das falésias está sendo bastante acelerado pela falta de drenagem nas ruas da parte urbanizada da mais importante praia de Aracati. Sem falar do passeio de buggys e da grande movimentação de pessoas em cima das falésias.
De acordo com o coordenador da Organização Não-Governal (ONG) Recicriança - localizada na Vila Estevão, próximo de onde desmoronou parte da falésia com uma das esculturas -, Tércio Vellardi, ocorreu situação parecida há nove anos. “Em 2006, aconteceu um fenômeno como esse. Poucos dias de chuva, a maré alta de lua cheia e o desrespeito das pessoas pela área das falésias ocasionaram destruição”.
Tércio explica que esse intenso movimento das marés na praia é consequência da realocação das pedras que formavam os corais para a formação de piscinas naturais em outras áreas da praia, conhecida como Porto das Barteras, no final da década de 90. “A falta dessas pedras faz com que o movimento das ondas chegue cada vez mais forte e mais rápido, afetando as falésias. As barracas de certa forma freiam essa intensidade, mas também correm o risco de desabamento”.
Para o ambientalista, “uma solução seria colocar as pedras no local novamente ou ostras. “Esse material barraria a força das ondas, diminuindo a destruição das falésias como vem acontecendo. Esses locais que têm os símbolos da Canoa estão caindo e vão cair mais se essa providência não for adotada.
Ainda sobre o avanço do mar, Tércio revela que, através de um monitoramento feito por ele nos últimos 17 anos, ficou constatado a destruição de 13 metros de falésias. “O mar continua avançando e as falésias têm o seu movimento. Elas não são fixas. Entretanto, o que preocupa é que os desmoronamentos acontecem de forma progressiva. Medimos aqui desde 1998. Na época, tínhamos 20 metros de distância de um coqueiro que temos aqui até a ponta da falésia. Hoje são apenas sete metros, ou seja, sumiram 13 metros durante esse período”.
Tércio lembra que, entre 2003 e 2004, “foi feita uma grande reforma urbanística na Broadway. Só que esqueceram de dar uma destinação para a água, tipo uma lagoa de estabilização. O resultado é que, principalmente quando chove, essa água produz uma enxurrada que ocasiona grande erosão às falésias. Essa água tem que ser retida lá em cima para ser reutilizada e não vir dessa forma para dentro mar.
Especialista
Quando ouvido pela reportagem em “O mar avança”, o professor do Curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e um dos maiores especialistas em falésias, Jeovah Meireles, já alertava “para essas grandes voçorocas que estão surgindo em Canoa Quebrada, que são frutos da impermeabilização do solo nas áreas urbanizadas, que transformaram as ruas em verdadeiros rios que, por sua vez, produzem enxurradas que destroem esse importante patrimônio natural”. Desde então, nada foi feito para deter esse processo.

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